As informações que chegavam aos portugueses sobre a Serra eram excelentes: Abundancia de frutas silvestres, água corrente perene, solo fértil e principalmente um clima ameno, parecido com o europeu. Os índios do litoral tinham por aquela serra grande respeito e admiração. Chegavam a contar lendas sobre sua conquista e povoamento, que segundo eles teriam sido feitos por um bravo guerreiro vindo das bandas do Jaguaribe (ALENCAR, 1991).
Os primeiros portugueses que chegaram ao sopé da serra eram provenientes das regiões de Beberibe e Aquiraz, que subiram pelo vales dos rios, principalmente o Choró. Os Jesuítas já haviam alcançado a serra por volta de 1655, quando formaram uma missão para catequizar os índios, principalmente as tribos dos Tapuias ou Paiacus. Essa missão se instalou no lugar chamado Comum, hoje Tijuca, onde o ouvidor achou inconveniente erigir uma Vila em razão de sinuosidade de terreno e da estreiteza do platô, sendo transferida para o lugar onde hoje se localiza a cidade de Baturité (STUDART FILHO, 1965, p.140).
Esses índios provavelmente provenientes do Jaguaribe e que ali estavam instalados, viviam de um modo muito primitivo, sem conhecimento dos metais, fabricavam suas armas e utensílios domésticos com pedras pacientemente modeladas. Seu grupo biológico se caracterizava pela robustez e grande estatura de seus homens, com ossos grossos e fortes, cabeça grande e espaça, cor atrigueirada, cabelos pretos pendentes sobre o pescoço, cortado igualmente acima das orelhas. Além dos Paiacus viviam dispersados sobre a serra os seguintes grupos indígenas: Canindés, Jaguaribaras e Apuiarés (STUDART FILHO, 1965).
As aquisições de terra nas baixas imediações da serra foram feitas por sesmarias doadas aos pioneiros que subiam nos vales dos rios, em um verdadeiro movimento de bandeirismo, porém nenhuma destas entradas aventurava-se às abas da serra, ficando tão somente restrita aos pés da serra.
As partes mais elevadas, em virtude das dificuldades que ofereciam à conquista, formavam verdadeiros esconderijos de índios fugitivos, cobertas de matas espessas, formando uma frondosa selva de pau d’árco, jacarandá, maçaranduba, algelis, pirauás e inúmeras quantidades de arbustos e trepadeiras. Em razão da sua ferocidade e da resistência aos colonizadores, os Paiacus foram os mais perseguidos. Em 1713, descontentes com a perda de suas terras, aliaram-se aos Jaguaribaras e saquearam Aquiraz; a partir de então foram violentamente perseguidos. A ordem real era matar todos os índios homens que pegassem em armas, e grande parte da população indígena foi morta sem dó (LEAL, 1981).
Na serra propriamente dita, correspondentes às atuais localidades de Mulungu, Guaramiranga e Pacoti, foi muito demorada a chegada do colono branco. Foi em Conceição (atual Guaramiranga) que se deu a primeira ocupação com a instalação do sítio Macapá, pelo Capitão João Rodrigues de Freitas, no
século XVIII, nos anos finais dos setecentos (LEAL, 1981).
As condições arriscadas de penetração, caminhos inadequados, escorregadios e ondulados, existência de índios rebeldes desconfiados da amizade dos brancos, fizeram com que se considerassem as terras serranas sem préstimo e sem valor. Este pensamento perdurou por muito tempo, só começando a ser modificado com as crises climáticas que castigaram o Ceará nos anos de 1777-1778 e 1790-1793 (conhecidas como seca dos três setes e seca grande, respectivamente). “Esta ultima foi tão terrível e rigorosa, que durou quatro anos, destruiu e matou quase todo o gado do sertão” (POMPEU, 1909).
Nessa época, os sertanejos, temerosos das desgraças da fome, sede e morte do gado, procuraram aproximar-se das serras, garantindo assim um local para refrigerar os rebanhos e para saciar a própria sede.
Com a perseguição sofrida, os selvagens foram por fim dominados e reunidos no pé da serra, na aldeia de índios de Monte-Mor, o Novo da América (Hoje Baturité). Livre dos índios passou a Serra a ser procurada pela população sertaneja durante os calamitosos anos de seca. Assim os fazendeiros do sertão, reunindo dinheiro e recursos que podiam dispor, partiam para a serra com a família e os escravos, levando apenas os animais necessários à sua condução e algumas vacas leiteiras. Dirigiam-se aos lotes de terras devolutas que tiveram de comprar aos primeiros exploradores que vendo a oportunidade de um bom negócio, haviam-nos precedido, abrindo picadas na mata virgem, assinalando a posse que faziam junto às autoridades fiscais (POMPEU, 1909).
O ponto decisivo para a conquista da área serrana se deu pela excelente adaptação do café em suas terras úmidas e férteis, sendo introduzido por Antônio Pereira de Queiroz Sobrinho, vindos das plagas do Cariri, descendente de Pernambuco (UCHOA, 1954, p. 182).
A partir de então, ocorreu verdadeira corrida pela aquisição das terras serranas, e para lá se deslocaram muitos dos ricos fazendeiros e seus descendentes, principalmente dos sertões de Quixadá e Canindé. Subiram a serra em busca de fortuna as famílias Queiroz, Holanda, Pimentel, Caracas, entre tantas outras. Em pouco tempo, a área serrana apresentava notável influência no cenário estadual, produzindo frutas e legumes para a Capital, cana-de-açúcar (transformada em rapadura) para os sertões arredores, além do algodão arbóreo cultivado nos pés da serra e principalmente café, que já em 1846, juntamente com o de Maranguape, era exportado em toneladas para a Europa (PRATA, 1983, p.174).
Estudioso moderno, Prado (1994) reconhece a vital importância da serra de Guaramiranga no desenvolvimento histórico de Ceará, ao ponto de afirmar: Uma característica do litoral cearense que impediu que sua faixa costeira permanecesse inteiramente deserta foram as serras que em maciços isolados aliaram-se sucessivamente ao longo da costa [...] destacando por isso estas elevações como oásis de terras férteis e cultiváveis em meio da aridez que o cercam. Tais serras atraíram e fixaram algum povoado que procura sua saída pelo mar próximo [...] Fortaleza que será a capital da capitania graças a sua posição central [...] e sobretudo a fertilidade da Serra de Guaramiranga, que forma a sua hiterlândia (PRADO, 1994, p.46).
No alto da serra, Vitoriano Correia Vieira comprou o sítio Conceição do posseiro Francisco Félix. Como era muito religioso, mandou construir uma capela. Com a construção do templo e do cemitério, o pequeno povoado em franca prosperidade passou a ser conhecido como povoado de Conceição, e em poucos anos era uma verdadeira vila. O pequeno povoado tornou-se o principal ponto de encontro dos ricos proprietários da serra que se reuniam habitualmente para discutir um pouco de política e muito de negócios, pois o ponto representava uma espécie de “bolsa comercial” da zona, visto ser ali que geralmente se combinavam grandes transações de empréstimos, e, com mais freqüência, as liquidações sumárias das hipotecas. Com o crescimento do povoado, elevou-se à categoria de Matriz a Capela de Nossa Senhora da Conceição. Como prova de prestigio da região e o seu reflexo na vida política da Província, o Príncipe Imperial, Conde d’Eu, esposo da Princesa Isabel, em sua visita ao Nordeste, em 1889, foi até Conceição.
Em setembro de 1890, Conceição foi decretada vila e ascendeu à categoria de Município de Guaramiranga no mesmo mês e ano. Posteriormente foi anexada e emancipada duas vezes até o enquadramento definitivo como município em 1957 (PREFEITURA, 2003).